TPM Luz no final do túnel
TPM: há luz no fim do túnel
Os sintomas são conhecidos de cor e salteado pelo sexo feminino. Vão do cansaço às dores de cabeça e cólicas, mas também podem ter fundo emocional, como irritabilidade, tristeza e depressão. A novidade é que, pela primeira vez no país, um estudo mostra o quanto e como a tensão pré-menstrual atinge as mulheres. Pesquisa feita pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revela que 80% das brasileiras têm ou já tiveram TPM. O índice serve de alerta para que médicos dêem maior atenção ao problema e orientem melhor as pacientes em busca de bem-estar. Além de estremecer relações amorosas e familiares das «vítimas», a TPM também afeta o desempenho no trabalho, devido à dificuldade de concentração, dores e falta de energia. Luz no fim do túnel é que novos medicamentos podem reduzir os sintomas da tensão em casos mais severos. Apesar de afligir as mulheres desde os tempos mais remotos, a TPM ainda é cercada de mistérios. Os médicos sabem que ela está ligada à questão hormonal, mas o mecanismo que desencadeia os transtornos não é totalmente conhecido. Certo é que os sintomas surgem de sete a dez dias antes da menstruação, e somem logo depois do início do sangramento. Variam de efeitos físicos - que também incluem inchaço dos pés e mãos, mudanças no sono e dores nas articulações, músculos e mamas - a alterações emocionais como baixa auto-estima, raiva e choro. O impacto é sentido no dia-a-dia das mulheres e também de quem lida com elas, dentro de casa ou no ambiente profissional. Traz um desgaste mensal na relação com os outras pessoas, com conseqüências que podem se voltar contra a própria mulher. «Há casos em que ela não consegue trabalhar. Se falta ao serviço, pode ser a primeira a ser mandada embora pela empresa num momento de crise», exemplifica o ginecologista Carlos Alberto Petta, professor da Unicamp e coordenador do estudo, batizado de «Tensão Pré-menstrual: perspectivas e atitudes de mulheres, homens e médicos ginecologistas». Cada folha do calendário anuncia a chegada de mais uma temporada de falta de paciência e baixa concentração para a estudante de Direito Janaína Viana Alves Catarina, 22 anos. Desde a adolescência, ela sofre de TPM. «Nesses dias, qualquer coisa me tira do sério. Fico bastante agressiva e nervosa». Os sintomas são tão evidentes que, segundo a universitária, até quem não é muito próximo dela descobre na hora que o problema é TPM. «Lá em casa, meus pais sabem que é melhor nem mexer comigo nessa época», afirma. «É um comportamento temporário e você nem percebe, mas afeta todo mundo ao redor», diz Janaína, que deposita na medicina a esperança de se livrar de tanto desconforto. Com a chegada da menstruação, ela sente tantas cólicas que já chegou a desmaiar. Conforme a pesquisa da Unicamp, 95% das mulheres com TPM manifestam os dois tipos de sintomas, físicos e emocionais - o que agrava a tensão. O estudo também mostra que, apesar do desconforto, 58,2% nunca procuraram um médico por esse motivo. Para Carlos Petta, a taxa sugere que falta informação entre quem padece de TPM. Mesmo junto às mulheres com a forma mais severa do mal, somente 40% buscaram ajuda. Aquelas que sofrem «solitárias» justificaram ter vergonha em falar dos sintomas e dificuldade em associar o mal-estar ao período anterior à chegada da menstruação. «Mas é um erro pensar que a TPM é frescura», alerta o coordenador do estudo. Infelizmente, nem todos os médicos estão preparados para ajudar as pacientes a encontrar alívio. De acordo com o estudo, 18,1% das mulheres que foram ao consultório por causa da TPM ouviram do especialista que nada poderia ser feito, «porque é assim mesmo». Professor da Unicamp e membro de grupos internacionais de debate sobre a TPM, o ginecologista Luís Bahamondes defende que os médicos conversem mais com as pacientes, mas lembra que o assunto também é pouco discutido nas faculdades da área de saúde. «Além disso, é preciso educar as mulheres a não aceitar a resposta de que TPM é «normal»», diz.
Sintomas variam de mulher para mulher
Os sintomas da Tensão Pré-menstrual atingem as mulheres com diferentes intensidades. Há manifestações leves, moderadas e severas. As últimas são tão sérias que ganharam um diagnóstico específico, chamado Síndrome Disfórica Pré-menstrual (SDPM). A SDPM, de acordo com o ginecologista Carlos Petta, atinge de 10% a 12% do universo feminino em idade reprodutiva. A confirmação da doença acontece quando a paciente tem pelo menos cinco sintomas físicos ou emocionais decorrentes da TPM, mas Luís Bahamondes lamenta que nem todos os médicos estejam aptos a identificá-la. Boa notícia é que, para cada grau de TPM, há indicação de um tratamento. Mudanças no estilo de vida, como a prática de atividades físicas ou alterações da dieta, amenizam os sintomas da tensão em casos brandos. Nos mais graves, remédios podem reduzir os transtornos. A indicação depende do perfil e de como a TPM atinge cada mulher. Em alguns casos, médicos receitam antidepressivos e também anticoncepcionais orais para as pacientes. Feitos à base de hormônios, evitam a gravidez e aliviam incômodos da TPM, como as cólicas. Também ajudam a reduzir índices de câncer de ovário e de endométrio, conforme pesquisas. O problema é que as pílulas, muitas vezes, trazem na bagagem efeitos colaterais. Retenção de líquido pelo organismo, náuseas, inchaço, aumento de peso e dores de cabeça são queixas comuns. Podem ajudar a explicar o fato de que, na América Latina, o tempo médio de uso da pílula é de apenas seis meses. Entre adolescentes com idade de 13 a 19 anos, de 70% e 90% usam as drágeas somente por um ano, abandonando o método em seguida, de acordo com levantamento da associação internacional de pesquisa Psyma Latina, feita em 2007.
Anticoncepcional com 24 comprimidos é promessa de alívio
A novidade é um anticoncepcional oral que promete aliviar os sintomas da TPM, com mais benefícios e menos efeitos colaterais, já disponível nas farmácias do Brasil. Traz na fórmula a drospirenona, um hormônio desenvolvido em laboratório que não implica efeitos como aumento da pressão arterial, tensão nas mamas, ganho de peso e inchaço. Também atua sobre os sintomas emocionais da TPM, como alterações de humor e irritabilidade. E ajuda a amenizar a acne e a seborréia. Outra diferença em relação às demais pílulas é que o medicamento traz 24 comprimidos por caixa. O intervalo entre uma cartela e outra é de quatro dias. Nos remédios convencionais, são 21 drágeas e sete dias de descanso. A mudança, de acordo com o ginecologista José Bento de Souza, dos hospitais paulistas Albert Einstein e São Luís, reduz o período em que a mulher está sujeita à TPM e não prejudica a saúde. Entre o fim de uma cartela e o começo de outra, a paciente tem o sangramento. O uso deste anticoncepcional deixa o ovário sob um controle maior da pílula. «Daí a diminuição dos efeitos da TPM», diz o médico Carlos Petta. No entanto, ele afirma que toda prescrição de remédio deve ser feita de acordo com o tipo de paciente e o estilo de vida dela. No caso do medicamento com 24 comprimidos, considerado por muitos profissionais de saúde revolucionário, também há restrições para mulheres com antecedentes de embolia ou problemas hepáticos. E, como na maioria dos remédios, podem surgir efeitos colaterais, como alteração nos vasos sangüíneos das pernas. Nos Estados Unidos, o anticoncepcional à base de drospirenona, com apresentação em 24 comprimidos, já foi aprovado tanto para evitar a gravidez quanto para combater a TPM. No Brasil, por enquanto, tem a indicação como contraceptivo, mas o fabricante tenta conseguir autorização do Governo para sua utilização também no tratamento de TPM.Fonte: Jornal Hoje em Dia 12/03/08

